Brasília, 2/11/2003 (Agência Brasil - ABr) - A extrema pobreza, a falta de informação e as inúmeras guerras que assolaram o continente africano nas duas últimas décadas ajudaram a construir um cenário macabro: a África ocupa o 1º lugar em casos de Aids registrados em todo o mundo. Segundo estimativas do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids (Unaids), dos 42 milhões de adultos que viviam com a doença no planeta em 2002, 30 milhões estavam na África Subsaariana.
Por esta razão, a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao continente africano terá, entre suas prioridades, a assinatura de acordos e protocolos de intenção na área de saúde. Estes acordos envolvem recursos da ordem de R$ 500 milhões, que serão investidos até o final de 2006. Aí estão incluídos projetos de cooperação no combate ao HIV e de fornecimento de tecnologia para produção de medicamentos anti-retrovirais. O ministro da Saúde, Humberto Costa, acompanha o presidente Lula durante toda a visita ao continente africano.
Desde o início da epidemia, a Aids matou 17 milhões de pessoas na África, quase tanto quanto catástrofes históricas como a gripe espanhola do início do século passado (20 milhões) e a peste negra na Idade Média (25 milhões).
No Brasil, as campanhas de prevenção e os medicamentos disponibilizados gratuitamente pelo governo têm se mostrado eficientes para reduzir o número de contaminações e prolongar a vida dos portadores do HIV. Para os africanos, no entanto, a situação é desesperadora. Segundo relatório publicado em setembro pela Organização Mundial de Saúde (OMS), somente 1% da população infectada recebe tratamento.
Em razão da epidemia, a expectativa média de vida em alguns países africanos deve cair de 45 para 35 anos até 2010. É o que pode ocorrer com a África do Sul, onde existem 4,7 milhões de contaminados, cerca de 20% dos adultos, segundo dados da OMS. Os números demonstram que o país tem a maior população de soropositivos do mundo.
Na África do Sul, a incidência de estupros é epidêmica, assim como a própria síndrome, e os dois estão vinculados. Em certas regiões, cultiva-se a lenda de que um portador do HIV pode curar-se ao violentar uma virgem. Oficialmente, ocorrem 50 mil estupros por ano.
A ajuda ao continente começou neste domingo, quando o ministro Humberto Costa assinou, na ilha de São Tomé e Príncipe, um protocolo de intenções na área de saúde com ênfase em vigilância epidemiológica, saúde pública e imunizações. Em Angola, onde chega hoje e estará na segunda e terça-feira (3 e 4/11), o ministro oficializa acordos para a prevenção e combate à malária. Uma das ações a ser desenvolvida é a melhoria da qualidade do exame microscópico da malária e a ampliação do acesso ao tratamento contra a doença.
A comitiva de Lula chega na quarta-feira a Moçambique e, na quinta-feira (6/11), o presidente irá visitar o Hospital Central de Maputo, capital do país, onde fará a entrega de medicamentos para atender cem pacientes infectados pela Aids.O gesto terá como significado maior o fortalecimento da cooperação técnica entre as nações na área de HIV/Aids.
O Projeto PCI/Ntwanano, que regula a parceria entre os dois páises, estabelece que o governo brasileiro enviará especialistas para capacitar profissionais do país africano e também fornecerá medicamentos anti-retrovirais genéricos produzidos aqui. O Brasil também apoiará o governo de Moçambique na instalação de um laboratório farmacêutico público para atender às necessidades do país.
Na África do Sul, o ministro Humberto Costa assina na sexta-feira (7/11) uma complementação ao acordo de cooperação técnica na área de saúde. Este acordo existe no país desde 2000 e prevê parcerias na área de HIV/Aids, saúde reprodutiva, desenvolvimento de recursos humanos, promoção e prevenção da saúde e malária.
Na Namíbia, último país a ser visitado pelo presidente Lula, o ministro Humberto Costa assina, no sábado (8/11), protocolo de intenções para o desenvolvimento de ações na área de Saúde da Família, HIV/Aids, anti-soro de animais peçonhentos, malária e saúde pública.
No continente africano, os investimentos estrangeiros para o controle da doença ainda estão muito aquém do necessário. O Programa das Nações Unidas para HIV/Aids, doou US$ 950 milhões em 2002 para combater o vírus na África. Mas, segundo o órgão, o valor representa apenas metade do que seria necessário para a prevenção e o tratamento integral da doença.
Outra doença epidêmica em todo o continente é a malária. Ao contrário da Aids, que requer a ingestão de vários medicamentos, o tratamento da malária (ou paludismo) é relativamente barato e fácil. No entanto, a doença continua a se disseminar, contagiando 300 milhões de pessoas por ano no mundo. Nove em cada dez pessoas contaminadas vivem na África.
As crianças são as maiores vítimas da "palú" - apelido que os africanos deram à doença. Segundo o último relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da OMS , mais de três mil crianças africanas morrem por dia em decorrência da doença, duas por minuto. O custo da doença para o continente mais pobre do mundo é de cerca de US$ 12 bilhões por ano, segundo Jane Crawley, do departamento da OMS encarregado do combate à malária.(Irene Lôbo)