Texto da solenidade de encerramento, lido por índios e negros na manhã de 31 de janeiro.
Esta quinta edição do Fórum Social Mundial começou como expressão da diversidade planetária, polifonia de vozes que se encontram em desejos universais da tolerância, da justiça, da paz, da igualdade. E se encerra dentro desse mesmo espírito. Mas este fórum teve o desafio de ser mais propositivo, de avançar em agendas comuns e propor ações. Para isso, ele foi totalmente autogestionado. Todas as atividades foram desenvolvidas pelas organizações participantes. Nos 11 Espaços Temáticos, foram afixados murais para receber propostas que resultassem das discussões e assembléias. Até agora, 352 propostas foram afixadas nestes murais. E se encontram aqui expostas. Elas serão divulgadas para que mais movimentos, organizações e pessoas possam a elas se incorporar.
Tudo isso aconteceu numa geografia própria: o Território Social Mundial, instalado ao longo da orla do Guaíba, onde discutimos propostas e compartilhamos a convivência. Com contradições e conflitos. Celebramos a vida comunitária e a responsabilidade comum num espaço aberto, público, coletivo e democrático. O território do fórum foi um laboratório para mudar a vida. Foi o lugar de convergência de inúmeras iniciativas. De encontro entre a comunidade do Fórum e de Porto Alegre, a cidade cujo símbolo é o pôr-do-sol do Guaíba que não tem dono, não foi construído, é de todos e de ninguém da mesma forma. Foi esse crepúsculo que, todos os dias, recortou um território em movimento, geografia de um mundo em transformação.
No território do Fórum, materializamos várias práticas transformadoras. A bioconstrução mostrou que uma casa pode nascer do simples ordenamento racional do que a natureza oferece. A economia solidária, justa nos preços e ética no consumo, esteve presente. Práticas desafiadoras, como o uso do software livre, a rede de voluntários da tradução e novas formas de comunicação compartilhada foram incorporados ao dia-a-dia. Isso exigiu aprendizado, persistência, trabalho. Mas para quem quer mudar as coisas, só existe um caminho: tentar. Por isso tentamos, insistimos, resistimos. Só assim é possível aprender e seguir em frente.
Este ano, pela primeira vez, o Acampamento da Juventude esteve incorporado à geografia do Fórum, inovando nas práticas comunitárias e de autogestão e radicalizando na defesa dos direitos humanos. A autogestão permeou todas as práticas, desde o primeiro momento. E assim, em vez de eventos com grandes palestras, houve uma discussão horizontal, plural e democrática de uma multiplicidade de temas. Atividades que permitiram o encontro de muitas organizações e pessoas, tecendo redes, planejando ações, forjando novos encontros. Porque o Fórum não começa nem termina neste espaço. Ele é o momento de convergência de movimentos que lutam, se encontram e seguem lutando. E novas propostas de ação surgirão nesse processo.
Este Fórum se multiplicou no coração e na ação de muita gente. Foram, no total, 155 mil participantes. Destes, 35 mil integrantes no Acampamento da Juventude e 6.880 comunicadores. Pessoas de 135 países envolvidas em 2.500 atividades. E gente que fez da boa vontade, inclusive para resolver problemas, um inestimável alicerce para que este Fórum acontecesse: 2.800 voluntários e voluntárias movidos pela consciência e pela solidariedade. Todo mundo ajudou a dar sentido ao espírito do Fórum, que se espalhou pelo planeta. Milhões de pessoas se conectaram ao Fórum pelas mais variadas formas de comunicação.
Fica para nós e para o mundo um espetáculo de diversidade, que começou num final de tarde de 26 de janeiro de 2005: 200 mil pessoas caminhando por Porto Alegre. Ali estavam os malabaristas em frente a um planeta azul carregado por muitas mãos. Os movimentos sociais e populares, os sindicatos, as ONGs. E tantas nua