Gabriela Guerreiro
Enviada especial
Porto Alegre Uma das propostas da campanha Chamada Global para Ação contra a Pobreza é o cancelamento da dívida externa dos países em desenvolvimento para que os recursos sejam aplicados em ações que reduzam as desigualdades sociais. A discussão sobre a dívida externa surgiu durante a sessão de questionamentos de seis representantes de organizações que apóiam a Chamada Global, dirigidos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A representante do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Iara Pietricovsky, questionou o fato de o Brasil ter gasto, em 2004, R$ 124 bilhões com serviços da dívida para manter o superávit primário em 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
O presidente disse que o seu sonho é que o Brasil tenha condições de rolar parte da dívida com o superávit primário. "Eu gostaria de um dia poder ter um superávit capaz de pagar, e essa dívida diminuir definitivamente", ressaltou. Na avaliação de Iara Pietricovsky, Lula adotou uma postura responsável ao não expor publicamente possíveis intenções de perdão da dívida externa. "Mas ele deixou claro que gostaria que não fosse um pagamento que sacrificasse a população. Ele não pode correr o risco, e respondeu em parte a minha questão. Entendo a sua posição", ressaltou.
A assessora do Inesc defende o engajamento do presidente Lula na campanha, especialmente pela liderança que exerce à frente dos países em desenvolvimento.
Lula também justificou a sua ida ao Fórum Econômico Mundial em Davos. Segundo o presidente, se um chefe de Estado não der passos para conversar com as nações "responsáveis pela fome", a solução para o problema fica ainda mais distante. "Por isso em algum momento vai ter que haver um encontro entre a cúpula de Davos e do Fórum Social Mundial. Eu que sou de um país pobre preciso discutir a minha pobreza, só posso apresentar mecanismos para acabar com a pobreza se eu estiver presente", disse.
O presidente citou o exemplo de Saddam Hussein, que ao invés de contar com o apoio internacional antes de decidir enfrentar os Estados Unidos na ocupação do Iraque, preferiu agir sozinho. "Ele poderia ter feito gestos com outros parceiros para resolver o problema. Mas preferiu achar que poderia fazer tudo. Toda oportunidade que eu tiver para conversar com alguém, pode ficar certo que eu não medirei esforços para estar", afirmou.