Aloisio Milani
Enviado especial
Porto Alegre No final de dezembro, numa das últimas operações de fiscalização do governo federal, 27 pessoas foram libertadas de condições análogas à escravidão no município de Darcinópolis, interior de Tocantins. Eles foram recrutados no Maranhão, trabalhavam na retirada de raízes para a limpeza do solo a fim de formar lavoura de soja.
Esse é um dos exemplos que se enquadram nos debates do Fórum Social das Migrações, que acontece na véspera do Fórum Social Mundial (FSM) 2005 em Porto Alegre. O encontro concentrou discussões sobre o modelo de desenvolvimento e as alterações do capitalismo que refletem nos processos migratórios das populações mais pobres.
Entre 1995 e 2000, por exemplo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou uma perda populacional da área rural brasileira de quase 250 mil pessoas. As principais causas são a ausência de alternativas para fixação do pequeno agricultor, o modelo de desenvolvimento que privilegia o agronegócio e problemas decorrentes da gestão dos recursos hídricos, como a construção de barragens.
O coordenador da campanha da Comissão Pastoral da Terra contra o trabalho escravo no Brasil, Frei Xavier Plassat, reconhece que a origem das migrações tem diversas causas, mas que passam necessariamente pela escolha de um modelo de desenvolvimento que, em última instância, influencia o trabalho degradante. "De fato, nós avançamos na questão da fiscalização e repressão do trabalho escravo. Mas quando analisamos o nível fundamental, onde estão as raízes do trabalho escravo, vemos um modelo social e econômico que gera essa quantidade de pessoas sem alternativa em sua terra de origem", diz.
Para Frei Xavier, as migrações nascem com "a falta de educação e de reforma agrária, junto ao apregoamento de um modelo de desenvolvimento avançado, mas pouco utilizador de mão-de-obra e pouco voltado para o desenvolvimento local do mercado".
Durante a conferência "Terra, Água e Migrações", o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, criticou a prioridade dada à agricultura de larga escala para exportação. "O agronegócio representa no Brasil a aplicação do neoliberalismo para a agricultura. Assim como no período colonial, o capitalismo precisou implantar nos países pobres a forma de pantation, que combinava grandes fazendas com exportações e trabalho escravo. Agora, a forma de organização da produção agrícola para o capital internacional é o agronegócio", afirmou.
A construção de barragens como alavanca para a migração dos ribeirinhos também foi citada pelo integrante da Comissão Pastoral da Terra, Roberto Malvezzi, especialista no tema da água. "Calcula-se que cerca de 1 milhão de pessoas foram desterradas por construção de barragens. O mais grave para nós é que a demanda de energia faz com que o governo insista na construção de grandes barragens. Isso prioriza apenas a fonte de energia hídrica e não outras alternativas", afirma.
(Aloisio Milani)