A aula de violão acontece três vezes por semana. Muitos garotos vão porque não querem ficar em casa ou na rua ociosos. Há também crianças. Chama atenção, contudo, uma senhora e um senhor que iniciam os acordes. É o casal Maria Zaneti e Vilson da Silva. Ambos acreditam que a participação em atividades coletivas no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) de São José IV, periferia de Manaus, Amazonas, motivará o filho Luan, de 14 anos, a fazer o mesmo.
O menino, filho único do casal, renunciara à escola e ao convívio familiar pelo jogo. Era manhã, tarde e noite. Dia útil, feriado e fim de semana também. Tudo pelos games em rede. Nosso filho estava viciado, sentencia a mãe. Ela lembra o dia em que Luan, aos prantos, chegou perto dela e confessou, diante do sofrimento dos pais: Não consigo estudar. O jogo me domina.
Sem hesitar, Maria larga o emprego. Meses depois, para azar da família, Vilson é demitido. Mas ninguém se arrepende. Vale mais salvar meu filho do que qualquer salário, garantem. Luan ainda não vai ao CRAS para as aulas de violão, mas já toca o instrumento em casa, motivado pelo interesse dos pais. De violão emprestado em punho, o menino tem trocado o isolamento dos games pelo aprendizado em companhia da família.
Maria dá como certo que o próximo passo será o ingresso voluntário do filho às aulas de violão. Ele vai freqüentar e conhecer novas pessoas, diz. Em tom professoral, Vilson explica que a juventude, especialmente dos bairros mais vulneráveis, como o São José, deve se ocupar para não cair na marginalidade.
A coordenadora do CRAS, Cathia Alencar Arruda, compartilha da mesma opinião de Vilson. Mas ressalta o papel da família no resgate dos jovens. No CRAS, não trabalhamos com públicos segmentados. A aula de violão, por exemplo, vai da criança ao adulto. Todos interagem juntos, relata. Segundo ela, o bairro São José é perigoso ao ponto de, à noite, poucos se arriscarem a deixar suas casas. É a zona vermelha, sempre em estado de alerta.
Ainda no CRAS São José IV, perto da aula de violão, estão reunidas beneficiárias do Bolsa Família grávidas e com filhos recém nascidos. Márcia Maria Fernandes, de 26 anos, é uma delas. Tem dois filhos: Isaura, de 7 anos, e Matheus, de um mês. Ela e o marido Izac viviam brigando. Ele bebia e gastava o pouco que recebia dos biscates na folia, lembra. Na vizinhança, todos diziam para eu separar logo.
Triste, confusa e grávida de Matheus, Márcia foi acolhida no CRAS. Participou de atividades socioassistenciais e, às vezes, era visitada pela equipe técnica. Não separou e, hoje, diz estar feliz no amor. Aprendi a ter mais paciência, confessa, reconhecendo intransigência de outros tempos. Izac, por sua vez, tem demonstrado mais atenção à família. Ele está mais carinhoso com as crianças, aponta a esposa.
No CRAS São José, a participação dos pais nas atividades é estimulada. A coordenadora Cathia Alencar diz que ainda é um desafio trazê-los. Aos poucos, no entanto, eles vão aparecendo. No Dia dos Pais, fizemos uma homenagem. Alguns vieram e se sentiram prestigiados, valorizados, conta.
Os Centros de Referência da Assistência Social são co-financiados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), por meio da Secretaria Nacional de Assistência Social (SNAS). Já são 3.242 mil Centros espalhados pelo País. A expectativa é de que este serviço seja universalizado, ou seja, que cada município brasileiro possa garantir ao cidadão o direito à assistência social.