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Debates sobre opressão contra as mulheres dominam acampamento dos jovens na Índia

Publicado em 20.01.2004 por Agência Brasil

Márcia Detoni

Enviada Especial


Mumbai (Índia) - A paulistana Isadora Curi, 23 anos, sente-se um pouco deslocada este ano no Acampamento Intercontinental da Juventude. "Os indianos acabaram dominando o acampamento, como fizemos no ano passado em Porto Alegre", comenta a estudante de história da USP. Pequena, loira e de olhos azuis, Isadora diz ter posado para fotos ao lado de vários jovens asiáticos. "É como se uma muçulmana passasse de burca na avenida Paulista", compara, rindo. Segundo ela, a maioria das discussões é em hindi, o que dificulta a participação dos estrangeiros.

Não passam de 20 os brasileiros presentes no acampamento. A maioria de indianos e outros jovens asiáticos discutem problemas locais e regionais. Seguindo a tradição de Porto Alegre, o 4º Acampamento Intercontinental da Juventude, que ocorre paralelamente ao 4ª Fórum Social Mundia (FSM), tem programação própria, com ênfase, este ano, nos temas de maior relevância para os orientais: educação, discriminação da mulher e relacionamento entre os sexos.

De acordo com o comitê organizador, cerca de 3 mil jovens participam do evento na Dom Bosco School, uma escola a 30 quilômetros do FSM, que foi preparada com tendas de tecido e tatames para receber os participantes. "Estou aprendendo muito", diz a vietnamita Chi Pham Piauong, de 28 anos, que pertence à Federação da Juventude de seu país. Ela e a colega Van Hoang, 25, participam diariamente dos debates da juventude e, até agora, só foram ao FSM uma vez. "É uma grande oportunidade de conhecer jovens de outros países e outras culturas", comenta Van.

Para o indiano Sharma Manohar, 17, a realização do evento em Mumbai tem um significado muito especial. Ele abre uma janela para os indianos chamarem a atenção do mundo para seus problemas. "Precisamos de ajuda internacional para acabar com a pobreza e a fome", afirmou o estudante. O entusiasmo é o mesmo de Porto Alegre, com manifestações, faixas, cantos de protesto e batidas de tambor. "Eles também fazem festa e manifestação o tempo todo", comenta Isadora, que, após o fórum, vai ficar um mês viajando com sua mochila pela Índia e África do Sul.

Equilíbrio

Apesar da opressão sobre a mulher oriental, parece existir um equilíbrio relativo entre os dois sexos no acampamento, e as questões de gênero ocupam lugar de destaque na programação. Ontem, as garotas dominaram a cena, participando de uma oficina de introdução à auto-defesa e de debates sobre gênero, patriarquia e violência masculina contra as mulheres, além de uma exposição fotográfica sobre o ciclo de vida feminino.

Participantes dizem que a questão do feminismo e das relações entre os gêneros são as que mais geram "tensões." Enquanto todos encontram pontos comuns na luta contra a globalização imperialista, não parece existir o mesmo entusiasmo para lutar contra a patriarquia. Uma jovem perguntou, durante os debates, por que não há exames de virgindade para os rapazes, se tais exames são tão importantes para as moças? Ela também culpou os rapazes por escolherem casamentos com mulheres "tradicionais, que cuidarão de todas suas necessidades", apesar de dizerem que concordam com a necessidade de igualdade. Embora alguns homens reagissem de maneira defensiva, o clima geral era de respeito e aplausos para com as mulheres que se levantaram para falar.

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