Ouro Preto (MG) - O carnaval promovido pelas repúblicas estudantis e pela prefeitura, com potentes sons mecânicos e espaços para marchinhas, axé, funk e hip hop no centro histórico, atrai um grande número de visitantes para a cidade, que é patrimônio cultural da humanidade, mas provoca descontentamento entre os que defendem a preservação cultural e a exploração de um turismo mais elitizado.
“Não dá para exercer exploração turística quando as atrações começam a se deteriorar. Carnaval é tradicionalmente popular, mas não pode se transformar em desordem. Vê-se o caos oficializado”, criticou Vicente Trópia, dono de um cinqüentenário restaurante no centro. Ele classifica de “bagunça” a situação das ladeiras no carnaval, lotadas e com todo o tipo de lixo que se possa imaginar, apesar da limpeza diária que é feita.
Trópia ironizou também a providência adotada pela prefeitura de colocar tapumes artísticos na lateral de ruas elevadas, com o objetivo de evitar acidentes. “O sujeito vem de Paris tirar fotografia e não consegue. Seria o mesmo que, no réveillon do Rio de Janeiro, tapar o mar para evitar que ninguém que beba e consuma drogas se afogue.”
O comerciante defende que o carnaval fique concentrado em um espaço fora do centro histórico - com exceção dos blocos tradicionais - para preservar o patrimônio e não afastar da cidade no feriado turistas que estiverem mais interessados em programas culturais e gastronômicos.
“É um modelo mais civilizado, como no Rio de Janeiro”, comparou. “Não pode é transformar a cidade toda numa situação caótica de proporções sem limites, deixando de lado a vocação natural de patrimônio cultural da humanidade”, argumentou Trópia.
Críticas semelhantes tem Raimundo Saraiva, dono de um hotel e uma pousada na cidade, que apresentam baixa ocupação no carnaval, segundo ele, em virtude da concorrência das repúblicas e do modelo de folia.
“Nosso propósito não é fazer esse tipo de festa. Até uns anos atrás, vinha pessoal de qualidade, gastava dinheiro e se divertia em blocos com dezenas de anos de história”, lembrou Saraiva. “Hoje, pessoas que gostariam de participar, deixam de vir porque vêem como uma bagunça. A cidade fica cheia, sem espaço para transitar, falta água. Não tem estrutura para suportar 30 mil pessoas a mais por dia”, acrescentou.
Alguns empresários já expressaram seu descontentamento com a folia de massa ao Ministério Público, e esperam a adoção de providências do órgão para o próximo carnaval. Um delas seria proibir a instalação de palcos com forte sonorização para shows ao vivo em largos e praças da cidade.