Cidade de Goiás - A história de resistência e a briga pela regularização fundiária da
área quilombola Kalunga, no norte de Goiás, ganhou hoje (21) as telas
do 11° Festival
Internacional de Cinema Ambiental (Fica). O documentário Kalunga, de
Luiz Elias e Pedro Nabuco, foi exibido na mostra competitiva.
Na
tela, depoimentos e histórias de moradores da área Kalunga e um retrato
dos costumes e das tradições africanas mantidas pelas comunidades, que em
1982, quando os diretores começaram a filmar, ainda viviam praticamente
isoladas.
“Desde a primeira vez vi a beleza do povo, os costumes, o
preservado deles. Como estavam isolados conseguiram preservar uma
história diferente da nossa. A beleza da cultura negra estava ainda bem
nova, sem ser corrompida pelo nosso processo colonizador”, afirmou
Elias, emocionado após deixar a sala de exibição sob aplausos.
A
beleza das imagens captadas no coração da Chapada dos Veadeiros também
tem razão política: garantir a regularização das terras quilombolas. O
território foi titulado em 2000 pela Fundação Palmares, vinculada ao
Ministério da Cultura. Em 2003, a competência para regularização dessas
áreas foi transferida para o Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (Incra), que diz estar próximo de concluir o processo.
“Essa
é a razão do filme. Lutei pelo filme para que eles tenham o direito ao
que é deles. A terra é deles, não tem razão para não ser. O presidente
da República falou, o governador falou”, citou Elias, em referência à
visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao território Kalunga em
2004, registrada no filme.
Outro conflito, registrado pelo
documentarista na década de 1980 e atualmente revivido pelos Kalunga, é
a tentativa de na área quilombola. O projeto atual, da Rialma Companhia Energética, da família Caiado,
prevê a instalação de uma pequena central hidrelétrica (PCH) de 30
megawatts. A área em estudo para o empreendimento abrange 67 mil dos
253 mil hectares da área Kalunga, 26,5% do total.
Segundo Elias,
que concluiu as filmagens do documentário este ano, a decisão sobre
autorizar ou não a construção da PCH tem dividido as lideranças da
comunidade.
“Eu não sou ambientalista, sou artista, mas sou
contrário à hidrelétrica. Sou contra o empreendimento, mas sou a favor
de desenvolvimento, um olhar para eles mais apurado. Não sou a favor de
que eles fiquem lá isolados sem dinheiro. Eles têm direito ao consumo
que eles queiram ter: escolas boas, roupas boas, ver os filhos formados”, afirmou o diretor.
No
próximo dia 24, os diretores pretendem exibir o documentário para as
comunidades do território Kalunga, durante os festejos de São João.
“Como
a polêmica da hidrelétrica está fazendo com que eles briguem entre
eles, achei que o melhor lugar para exibir o filme era aqui, num fórum
ambiental. Se aqui ele foi aplaudido por uma sala cheia, se as pessoas
deram um olhar para a questão, isso vai facilitar a decisão deles
[sobre a hidrelétrica]”, afirmou Elias.