A Bahia, que acaba de sediar o Fórum Social Mundial (FSM) Temático, quer sediar, em 2013, o próprio FSM, sucedendo Dacar, no Senegal, que fará o mesmo em 2011. Salvador serviu de extensão ao evento de Porto Alegre e foi um dos 27 fóruns descentralizados promovidos pelo FSM no ano em que comemora uma década de existência. Cerca de 10 mil pessoas se inscreveram para participar das 19 mesas de debate, bem como das centenas de iniciativas promovidas por organizações locais. Os temas envolveram diferentes áreas, tais como economia, comunicação e educação.
No entender dos organizadores, a reunião serviu ao seu objetivo, de promover o diálogo entre governo e sociedade civil. Entre os presentes, dois ministros Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social, e Samuel Guimarães, de Assuntos Estratégicos , economistas, sociólogos, sindicalistas, comunicadores, ambientalistas e representantes de organizações civis e de universidades de vários países.
O debate avançou do diagnóstico de "como fazer", envolvendo novas formas de governança e de gestão para "uma visão de mundo aplicada", resumiu o professor e economista Ladislau Dowbor, que coordenou as discussões sobre "Crise e Oportunidade". Muitos dos envolvidos na reflexão desse tema, que agrega pensadores do mundo todo e divulga artigos e análises no blog www.criseoportunidade.wordpress.com compareceram ao FSM baiano. Representando o Instituto Ethos, esteve seu assessor de Políticas Públicas, Caio Magri.
"Há agora mais consciência da convergência de várias crises financeira, climática, econômica e social , o que tem levado a discussões mais propositivas, tanto no FSM como em outros fóruns, argumentou Dowbor.
Crise, aliás, identificada por vários dos palestrantes como sinal de esgotamento do atual modelo neoliberal. Há um aprofundamento da crise financeira, coexistindo com uma crise energética, que por sua vez está associada à crise alimentar, afirmou o economista argentino Jorge Beinstein, da Universidade de Buenos Aires. Na análise do professor, o que vem ocorrendo é uma despolarização do poder econômico, antes concentrado em algumas grandes potências. O que vemos é a coexistência de uma multipolaridade, ainda muito frouxa, entre os países emergentes, que buscam espaços de desenvolvimento não-convencionais, explicou.
Não por acaso, quem sentou à mesa na rodada final de Copenhague foram Estados Unidos, Brasil, África do Sul, China e Índia, exemplificou o sociólogo e economista Carlos Lopes, diretor executivo do Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa (Unitar), sediado em Genebra. Mesmo que os resultados de Copenhague não tenham sido palpáveis, o fato é revelador dessa nova configuração na arena política, disse.
Lopes argumentou que a pujança econômica e a capacidade de investimento desses países podem ser medidas pelo tamanho gigantesco dos ativos das bolsas de valores na África do Sul. Lembrou ainda que, sem a cumplicidade da China e seus US$ 2 trilhões de reserva mundial para financiar o consumo norte-americano, os Estados Unidos ainda estariam patinando na crise.
A força dos emergentes está explicitada em sucessivos acordos internacionais que vêm sendo firmados entre essas novas potências. A trama de acordos Sul-Sul envolve um mercado de 4 bilhões de pessoas, ou mais de 60% da população mundial. É, portanto, um processo que já existe e não pode ser tratado como alternativa, argumentou o professor argentino Jorge Beinstein.
Fez, no entanto, um alerta: o de que o processo de conexão da periferia do capitalismo mundial tem uma via de saída da crise e outra de fracasso, se não encontrarmos uma alternativa ao modelo parasitário do comércio internacional. O acordo China-Indonésia, por exemplo, pode inundar de produtos têxteis e eletrônicos a Indonésia, causando desemprego e aprofundando a crise internacional, frisou.
Beinstein, no entanto, acredita ser possível prosperar outra lógica, menos competitiva e gananciosa, que tem no comércio solidário seu melhor exemplo. O economista Paul Singer, secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, afirmou que já há um Mercosul Solidário, e que o modelo também prospera na Índia, no Japão, na África, no México, na Europa e nos Estados Unidos. Tenho esperança, pois existem perspectivas, desde que sejamos pacientes, comentou o professor, que citou ainda, como exemplos de avanços democráticos, os bancos comunitários e as novas políticas sociais adotadas por governantes latinos de Lula a Chávez.
Para isso, no entanto, é preciso fortalecer o jogo democrático, hoje demasiadamente concentrado nas mãos de poucos grupos de comunicação. Na mesa Mídia e Democracia, foi defendida a necessidade de dar voz e visibilidade ao pluralismo de opiniões e de organizações sociais possíveis que caracterizam a sociedade contemporânea.
As mídias tradicionais detêm o monopólio da informação e não admitem críticas ao seu poder. Não têm o menor respeito pelos governos constituídos legitimamente, eleitos pelo povo. Basta ver a campanha internacional contra o presidente Hugo Chávez, perpetrado pela grande mídia no mundo inteiro, disse o italiano Mario Lubetkin, diretor da agência de notícias Inter Press Service (IPS).
Dar espaço para mídias sociais, jornais e rádios comunitários, blogs e outras, além de modificar a legislação que rege o setor, são passos importantes para a democratização. Não existe possibilidade democrática sem democratização da mídia, disse Albino Rubim, professor da Universidade Federal da Bahia.