Por Verena Glass
Repórter da Agência Carta Maior
São Paulo - Após ter sido realizado por três anos consecutivos em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial (FSM, maior evento internacional da sociedade civil organizada, que, este ano, acontece de 16 a 21 de janeiro na capital indiana, Mumbai), ganhou notoriedade não só no país, mas no mundo todo.
Um dos resultados das primeiras três edições do FSM é que ele acabou "popularizando" discussões e personalidades anteriormente restritas aos círculos de ativistas e intelectuais de esquerda, atraindo não apenas a atenção do grande público, mas um número cada vez mais significativo de lideranças sociais e intelectuais. Já participaram do FSM nomes como o lingüista Noam Chomsky, o ator Danny Glover, os escritores Eduardo Galeano, Naomi Klein, Arundhati Roy e Tariq Ali, políticos como Lula, Danielle Miterrand e Mario Soares e prêmios Nobel com Rigoberta Menchu e Adolfo Perez Esquivel, entre tantos e tantos outros.
Esse ano, o céu de estrelas do Fórum talvez não seja tão midiático como o de edições anteriores, mas reúne as "mãos na massa" do ativismo, da política e da intelectualidade internacionais. Entre os mais conhecidos, poderíamos citar o pensador egípcio neomarxista Samir Amim, o ativista palestino Mustafa Barghouti, secretário da Iniciativa Nacional Palestina (Mubadara, movimento de oposição democrática fundado juntamente com Edward Said), o ex-ministro de Justiça de Israel Yossi Beilin, o bispo mexicano de Chiapas, Dom Samuel Ruiz, o premio Nobel de economia Joseph Stiglitz, a relatora da ONU para execuções sumárias, Asma Jahangir, o diretor geral da Organização Internacional do Trabalho, Juan Somavia, a ativista ambientalista e antiglobalização indiana Vandana Shiva, o líder campesino francês José Bové, o ex-presidente argelino Ahmed Ben Bella, o líder cocaleiro boliviano Evo Morales, entre outros.
Por outro lado, a união de ativistas de diferentes nacionalidades numa mesma atividade é considerada um resultado concreto da articulação dos movimentos sociais em torno de determinados temas. Questões como a crescente militarização e a aparente (ou, segundo muitos ativistas, intencional) insolubilidade dos conflitos armados, o acirramento das disputas políticas em torno de questões macroeconômicas entre o Norte e o Sul do mundo, as mais variadas formas de violação dos direitos humanos e do meio ambiente - temas centrais do Fórum deste ano -, vêm mobilizando um número cada vez mais expressivo de ativistas das mais variadas origens, que utilizam o FSM para se agrupar e fortificar politicamente. Exemplo disso são a convocatória da assembléia internacional do movimento antiguerra, presente em praticamente todos os países do mundo, ou do encontro mundial das entidades camponesas associadas à organização Via Campesina.
Também o governo brasileiro deverá aproveitar o Fórum para fortalecer as relações iniciadas durante o passado pelo presidente Lula com os movimentos sociais internacionais. Por meio do Secretário Geral da Presidência, Luis Dulci, convidado também para participar de um debate sobre partidos políticos e movimentos sociais, o governo pretende aprofundar as articulações políticas e divulgar o trabalho do governo brasileiro junto aos movimentos, afirma o assessor do secretário, Carlos Tiburcio. Além de Dulci, foi convidado o assessor de Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia. A presença dos dois ainda não foi confirmada.
Participação asiática
Segundo o comitê organizador indiano, estão sendo esperadas para o FSM 2004 cerca de 100 mil pessoas. Mais de 800 atividades foram propostas por organizações inscritas no evento (seminários, oficinas, conferências, debates, encontros, etc), que se somam às atividades organizadas pelo Comitê Internacional do Fórum (conferências, painel/mesa de diálogo e controvérsia e reuniões públicas) focadas nos eixos temáticos "Terra, Água e Segurança Alimentar"; "Globalização, Governança Global e o Estado-Nação", "Militarismo, Guerra e Paz", "Exclusão e Opressão: Religiosa, Étnica e Lingüística".
De acordo com a Secretaria Internacional do FSM, 81 países propuseram atividades esse ano. Desse total, a grande maioria é da Ásia (47,4%), seguida pela Europa (22,7%), América Latina (12,6%), América do Norte (11%), África (5,4%) e Oceania (0,9%). Na lista de países com mais atividades propostas estão a Índia (33,4% do total de atividades), Estados Unidos (8,4%), Brasil (7,9%) e França (5,3%).