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Miséria ainda assombra o sertão-veredas de Minas

Publicado em 06.07.2003 por Agência Brasil

Brasília, 6/7/2003 (Agência Brasil - ABr) - Maria de Fátima Cardoso Jesus, idade desconhecida, saiu de casa cedo _ cinco, cinco e meia da manhã _ para ganhar, dependendo da produção na roça de café, o máximo de R$ 6. O marido, Sebastião Chagas de Jesus, que calcula ter 60 anos, tomou o rumo da mesma vereda, no sítio São João da Mata, município de Malacacheta, a 432 km de Belo Horizonte, no vale do Mucuri, já na divisa com outro vale mais famoso, o Jequitinhonha. Embora a velha tradição machista lhe garanta alguns dois, três reais a mais, nesse dia ele ficou na mesma faixa da mulher. Ganhou "apenas para o sal", como diz.

Os meninos, João, Adélia, Leonardo e Dario, ficaram dormindo sozinhos, ali na beira da estrada que dá na sede do município. Acordaram sem nada no fogo. São dez filhos ao todo. Os seis mais crescidos já se viram sozinhos, entre roças e a servidão doméstica em casas de pessoas mais aquinhoadas de sítios e cidades vizinhas. "Uma das meninas vive em casa com televisão, geladeira, povo que luxa", diz a mãe.

A família Chagas de Jesus em breve terá registros de nascimentos. Quase todos com idades arbitradas pela promotoria pública do município, que os alertou para a clandestinidade.

João, o mais novo, deve ter uns dois anos. O mais velho, Leonardo, não deve passar dos seis.

Como acordou sem comida _ o fogão era apenas um borralho de cinzas _ o caçula resolveu ciscar, como um bicho do mato, nos arredores da casa. Tentava tirar alguma sustança de um bagaço velho de cana-de-açúcar. Pela aparência, o bagaço já havia sido todo sugado por porcos. Ele ciscava nu, sujo de muito, entre os garranchos do balseiro. "Um bichinho, meu Deus", espantou-se Flávia Hilário Cassiano, 28 anos, assistente social de Malacacheta, que já conhecia a família.

A expressão da moça, paulista de São José dos Campos, situada em vale mais próspero, repetia, involuntariamente, velho poema de Manuel Bandeira. O poeta se espantou com o primeiro homem que viu a lamber sobras de alimentos de lata de lixo urbano, coisa de mais de 50 anos atrás.

Avexada, Flávia apanhou uns gravetos com a ajuda de João, Adélia, Leonardo e Dario, cortou uma abóbora e botou no fogo. Misturou na mesma água um punhado de arroz. Fez um "rebengo", como muitos sertanejos daquelas bandas chamam a comida feita das sobras das sobras.

Os meninos voaram em cima da panela e se lambuzaram. Era perto do meio-dia. Não comiam há 23 horas.

"Ah, minha filha, Deus que te guarde e ilumine para todo o sempre, amém". Era a mãe das crianças, Maria de Fátima, em agradecimento à ação da assistente social. "Filho de pobre é assim mesmo, come aqui, come acolá", discursa, no meio da roça de café.

A família Chagas de Jesus _ abaixo de tudo que se possa classificar como linha da miséria _ nunca conseguiu fazer parte de nenhum programa social de governo. Por falta de documentos, por achar que não tem mesmo direito a nada. "Isso não é para o nosso bico não, meu senhor", acentua a mãe.

Ladainha

Na última vez sentou para escutar o rádio, no começo do ano, o pai Sebastião, cuja origem é o município de Ladainha, ali no mesmo vale da miséria, conta que ouviu falar, sem entender direito, em "um tal de Fome Zero". No seu jeito guardado, faz cara de quem não aposta mais em qualquer inclusão. "É coisa do governo, né? Se vier, é bom". E volta para a roça.

Malacacheta é um dos 38 municípios dos vales do Mucuri e do Jequitinhonha escolhidos para o início das atividades do programa comandado pela política de segurança alimentar do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O Fome Zero começou, ainda em junho, no sertão mineiro. O convênio entre o governo federal, governo do Estado e prefeituras foi assinado em Belo Horizonte. Os comitês gestores do programa, que contam com representantes do poder municipal, sindicalistas, Igreja Católica e sociedade civil, estão prontos para a operação.

"Não vejo a hora, pois uma arremedeio desses já tira tanta dor de cabeça. Pense em acordar e ter que completar o de comer dos meninos tendo que trabalhar no cafezal!", diz Sebastiana Machado dos Santos, 43 anos, que, sem marido, tem que sustentar quatro crianças. "Os infelizes dos fazendeiros de café pagam muito pouco, mas as mulheres daqui se viram é na roça mesmo".

Ela mora na Vila Operária, nos arrabaldes de Capelinha, Vale do Jequitinhonha, a 427 km de Belo Horizonte. Nessa época do ano, quem consegue R$ 6 por dia na lavoura do café dá-se por contente. O caminhão chega às 4 horas, 4h30 da manhã, para a viagem até o trabalho _ totalmente clandestino, avulso, sem vínculo na carteira. Depois de 12 horas, no mínimo, o pau-de-arara da fome está de volta.

A sorte é que a solidariedade é grande entre os moradores da Vila Operária. As mães que ficam em casa ajudam os filhos das que tomaram o caminho da roça. Um prato de comida aqui, um mingau acolá. Mas a incerteza das três refeições ronda a área de casinhas apertadas, beco atrás de beco, onde o cheiro de café é forte durante todo o dia. As mulheres torram e passam no moinho os grãos que simbolizam um trabalho quase escravo. "Não é que a gente se conforme, mas tem tanta gente mais lascada", argumenta Francisco Gomes Figueiredo, 42 anos, pai de quatro filhos, também passageiro do mesmo caminhão dos avulsos.

A gente "mais lascada", no dizer de Francisco, vive nas "grotas". Isolada do mundo e dos possíveis benefícios e avanços. Como o casal Geraldo Leite, 43 anos, e Maria Batista da Costa, 42, pais de 10 meninos. Estão escondidos em Santo Antoninho, sítio a 30 km da cidade de Capelinha, aonde só se chega a pé. Os carros não alcançam seu terreiro. "Aqui não é o fim do mundo não, meu senhor, as coisas é que estão longe", diz Maria, enigmática. "Mas se alguém adoece, fica ruim mesmo".

É o caso do marido, diabético, que acaba de amputar um dedo do pé. Precisa voltar ao hospital. Mas deixa para quando "Deus der bom tempo". Um menino, João Fabiano, 8 anos, que sobe a serra de uns seis quilômetros para assistir às aulas, garante o bolsa-escola, renda que evita a fome mais brava. Ele estuda na localidade chamada Bateria do Riacho, onde é comum o desmaio por fome, como contam os próprios alunos. "É bom que aprenda alguma coisa pra ser gente na vida, mas só em merendar por lá já é uma ajuda do céu", relata Maria da Costa. "A fome por essas bandas é mais velha que o cuspe".

O guia da reportagem pelo sertão-veredas é Edmar José de Andrade Santos, funcionário da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em Minas. "Aqui há muita riqueza na região, mas o investimento é sempre voltado para café e a cultura do eucalipto, nunca para as pessoas", diz, em ensaio revoltoso sobre um drama mais antigo que a fome e o próprio cuspe: a distribuição de renda.

Capital x trabalho

Grandes e pequenos produtores rurais dos vales mineiros fazem eco contra qualquer programa social do governo que distribua recursos. A queixa tem razão direta e econômica, embora a desculpa usada seja a de que os benefícios deveriam estar associados ao trabalho. Como remuneram muito mal, vêem os programas como concorrentes. "É um discurso oportunista, baseado na lógica de que muita gente deixa de se submeter à exploração. A situação vai forçá-los a pagar melhor", diz o prefeito de Carbonita (a 421km de Belo Horizonte), Marcos Lemos (PT), presidente da Associação dos Municípios do Alto Jequitinhonha.

Com 8.967 habitantes, a agricultura é a principal atividade local. Um dia de serviço por lá é pago, em média, a R$ 6 na roça. O eucalipto domina a paisagem. Nivaldo Oliveira, 35 anos, recém-empregado de uma firma que explora essa cultura, consegue um salário mínimo (R$ 240) por mês para sustentar oito bocas _ o casal e mais seis filhos.

"É melhor do que nada", apressa-se em dizer _ e cortar as lamentações do marido _ a dona-de-casa Maria da Conceição Meira, 27 anos. "O ruim é ficar parado de tudo, aí o desmantelo é feio". Oliveira consente com a cabeça: "É melhor do que nada mesmo".

Na TV, ouviram falar do Fome Zero, programa no qual devem ser incluídos. A expectativa é grande em torno da ajuda de R$ 50 para comprar alimentos.

O pai tem a razão: "Acordar com a comida dos meninos resolvida é uma coisa que a gente não conhece desde que botou eles no mundo".


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