Iniciativas simples e de baixo custo capazes de gerar trabalho, renda e inclusão social com sustentabilidade serão apresentadas em Mostra durante a 2ª Conferência Internacional de Tecnologia Social, que será realizada em Brasília, de 15 a 17 de abril. No evento, que reunirá representantes de nove países, serão expostas 21 Tecnologias Sociais em áreas como agroecologia, reciclagem, bioenergia, incubação de empreendimentos solidários e captação de água de chuva para a produção de alimentos, entre outras. A inscrição para o encontro pode ser feita no site http://conferencia.rts.org.br.
Tecnologias Sociais compreendem produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social. Entre as TSs que serão apresentadas no evento estão maquinários para o aproveitamento total do coco babaçu, aquecedores solares de baixo custo, fogões ecoeficientes, sanitários compostáveis, sistemas de produção agroecológica e tecnologias de captação de água de chuva para a produção de alimentos no Semiárido.
Conheça, a seguir, um pouco mais de cada uma dessas Tecnologias Sociais:
Aquecedor Solar de Baixo Custo (ASBC) - Projeto gratuito de um aquecedor solar de água, de 200 a1.000 litros, desenvolvido pela ONG Sociedade do Sol a partir de componentes hidráulicos de PVC encontrados em lojas de construção. Os custos de instalação variam de R$ 250,00 a R$ 400,00 - cerca de 10% do valor de similares encontrados no mercado e pode ser inteiramente pago em até nove meses considerando uma economia média anual de R$ 388,00 na conta de luz para uma família de cinco pessoas. A idéia básica do aquecedor solar é a de pré-aquecer a água para que sistemas térmicos assumam a função de calibradores da temperatura.
Aproveitamento total do coco babaçu - Os maquinários de aproveitamento total do coco babaçu foram concebidos através do Núcleo de Tecnologia Social da Fundação de Formação, Pesquisa e Difusão Tecnológica para uma Convivência Sustentável com o Semiárido (Fundação Mussambê). Com baixo custo de manutenção e de fácil manuseio, os maquinários permitem, além da produção do óleo, o aproveitamento de subprodutos para a obtenção de carvão, torta para ração animal e artesanato.
Barraginhas - Com o objetivo de recuperar áreas degradadas pelo escorrimento das águas de chuvas sobre solos compactados, a Embrapa Milho e Sorgo, de Sete Lagoas (MG), desenvolveu Tecnologia Social que consiste na construção de barraginhas contentoras de enxurradas. Trata-se de pequenos açudes que, além de proporcionar melhores condições para as famílias do meio rural, diminuem os danos ambientais, principalmente a erosão e o assoreamento. Esse sistema força a recarga das reservas subterrâneas e armazena água de boa qualidade no solo, por meio da infiltração ocorrida durante o ciclo chuvoso.
Banco Palmas - O Instituto Palmas desenvolve um sistema econômico solidário que conta com uma linha de microcrédito alternativo para a população do Conjunto Palmeira, em Fortaleza (CE), além de instrumentos de consumo local (cartão de crédito e moeda própria: a palma). Desde a sua criação, em 1998, já são seis empresas comunitárias financiadas pelo Banco e cerca de 1.800 postos de trabalho criados. Graças à iniciativa, os 30 mil habitantes do Conjunto Palmeira têm acesso a crédito sem comprovação de renda. São 550 clientes e uma carteira ativa de R$ 420 mil.
Captação de água da chuva para consumo e produção - A Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) coordena a reaplicação de várias experiências relevantes de captação de água de chuva para consumo e produção, desenvolvidas no Semiárido por agricultores/as familiares no âmbito do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2). Na Mostra, será possível conhecer experiências como a da cisterna calçadão, sistema de captação de água de chuva destinada à produção de hortaliças e pequenas animais.
Central do Cerrado - Formada pela associação de 30 organizações comunitárias que desenvolvem atividades produtivas a partir do uso sustentável da biodiversidade do bioma, a Central do Cerrado funciona como uma ponte entre produtores comunitários e consumidores. Além de promover a divulgação e inserção dos produtos comunitários de uso sustentável do bioma nos mercados locais, regionais e internacionais, a Central também funciona como um centro de disseminação de informações, intercâmbio e apoio técnico para as comunidades na melhoria dos seus processos produtivos e de gestão.
Encauchados de vegetais da Amazônia - Desenvolvida pelo Polo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais (Poloprobio), a experiência recupera técnicas indígenas de produção da borracha a partir da produção de um composto com a utilização do látex, extraído pelos seringueiros, e fibras vegetais como a embaúba e o algodoeiro. O látex é aquecido de forma controlada e estabilizado com uma mistura de água com cinzas, recolhidas de fornos, fogão e roçados. O resultado é o chamado "encauchado", atualmente produzido em 29 comunidades da Amazônia para complementar a renda de assentados, indígenas e ribeirinhos.
Fogão Ecoeficiente Modelos avançados dos tradicionais fogões, criados para queimar menos lenha e livrar o ambiente doméstico da fumaça. Com estes novos fogões, as famílias beneficiadas sofrem menos com doenças respiratórias, oftalmológicas e queimaduras. A redução de até 60% do consumo de lenha também ajuda a diminuir a destruição das matas. Entre outras instituições, a Tecnologia Social é difundida pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis (Ider), sediado em Fortaleza (CE).
H2sol - Em parceria com instituições nacionais e internacionais, o Instituto Eco-Engenho concebeu e vem implementando o Programa H2Sol - Água Solar, que trabalha na instalação de microssistemas produtivos de irrigação para produtos de alto valor agregado, com uso de energia renovável e tecnologias adequadas em comunidades remotas do Semiárido do Nordeste do Brasil. Baseada na hidroponia, o sistema de cultivo sem contato com o solo usa canaletas por onde a água circula continuamente com pequena perda pela evaporação.
Incubadora pública de empreendimentos econômicos populares - A incubadora tem como objetivo fomentar e fortalecer a cultura e as estratégias de economia popular e solidária, como forma de geração de renda, organização, produção e relacionamento social, por meio da constituição de empreendimentos populares e solidários nas dimensões social, cultural, política e econômica. A proposta é promover a inclusão social no município, por meio da formação, mapeamento e disponibilização de tecnologias sociais, congregando conhecimentos para construção de processos coletivos e eficazes para o desenvolvimento socioeconômico, contribuindo para promoção do desenvolvimento local. A Tecnologia Social é resultado de parceria do Instituto de Tecnologia Social (ITS) com a prefeitura de Osasco/SP.
Manejo comunitário do camarão de água doce - Iniciado em 1997 por 30 famílias da Ilha das Cinzas (PA), o manejo comunitário do camarão de água doce se baseia no seguinte procedimento: os camarões são pescados por meio de armadilhas conhecidas como matapis. Tradicionalmente, os pescadores da região usavam o matapi para pegar tantos camarões quanto fosse possível. A partir de 1997, no entanto, a experiência incorporou um espaço de um centímetro entre as talas que formam a parede do matapi assim, os camarões grandes continuam sendo capturados, mas os pequenos ficam livres para se desenvolver.
Minhocasa - Desenvolvida pelo Instituto Coopera (DF), a Minhocasa é um sistema de compostagem doméstica em que minhocas convertem resíduos orgânicos em fertilizante natural. Trata-se de um sistema fechado, composto por três caixas plásticas empilhadas. No compartimento do meio, uma colônia de minhocas de duas espécies - vermelha da Califórnia e gigante africana - se alimenta de sobras de alimentos, folhas secas e papel, convertendo-os em dois tipos de adubo: húmus e um biofertilizante líquido.
Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais) O sistema Pais é montado em torno de um sistema de anéis, cada um destinado a uma determinada cultura, que complementa a que vem a seguir. O centro é utilizado para a criação de pequenos animais, como galinhas caipiras e patos. O esterco produzido pelas aves é utilizado para adubar a horta. A Tecnologia Social está sendo reaplicada em diversas regiões do país, por meio de uma parceria entre Sebrae, Fundação Banco do Brasil, Petrobras e Ministério da Integração Nacional.
Reaproveitamento de óleo vegetal como biocombustível - Desenvolvida no Rio Grande do Sul pelo Instituto Morro da Cutia de Agroecologia (Imca), a iniciativa busca garantir a conversão do óleo de cozinha utilizado em restaurantes, lares, escolas e demais instituições da região em biocombustível, preservando os recursos hídricos e disseminando alternativas de geração de energia apropriáveis e reaplicáveis pelas comunidades rurais. Uma vez na estação de tratamento, o óleo é filtrado e decantado, tornando-se apropriado para a utilização como biocombustível. Para cada 10 litros de óleo recolhido, é possível produzir cerca de seis litros de combustível.
Sanitário compostável Húmus Sapiens - O sanitário compostável Húmus Sapiens foi desenvolvido pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado Ecocentro Ipec. É um sistema integrado de aproveitamento dos dejetos humanos constituído de sanitários compostáveis e um minhocário. Nos sanitários, os dejetos são lançados diretamente em câmaras de compostagem, sem o uso de água para a descarga. Esse composto é levado posteriormente para um minhocário onde é produzido o húmus, um adubo orgânico excelente para a agricultura. Assim, o Húmus Sapiens fecha o ciclo da natureza sem agredir o meio ambiente, poupando anualmente milhares de litros de água tratada.
Técnica de construção superadobe Difundida pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado Ecocentro Ipec, a técnica utiliza sacos de polipropileno preenchidos com subsolo do próprio local. É relativamente simples e de fácil aprendizado, com custos baixíssimos por não depender de recursos externos nos principais estágios da construção. As habitações construídas com essa técnica têm a característica de manterem níveis de temperatura e umidade constantes, sendo a terra um isolante natural.
Tecnologias de produção do algodão orgânico - A prática se alastrou do município de Tauá para o Sertão Central e o Norte do Ceará pelas mãos do Centro de Pesquisa Esplar. A recomendação do plantio consorciado resultou da constatação de que a diversidade de plantas proporciona melhor aproveitamento do potencial de cada área, em função de exigências diferenciadas de luz, umidade e nutrientes por parte de cada planta, além de reduzir os riscos de perdas totais em casos de seca ou surtos de pragas. Por isso, o sistema sempre compreende o plantio do algodão com culturas como milho, feijão de corda e gergelim, além de leguminosas como a leucena e o guandu.
Processo de transformação de materiais de recicláveis - Desenvolvidas pela ONG Guardiões do Mar (RJ), o Mosaico Ecológico, a fabricação de móveis com PET, o Artesanato com Jornal e a produção de peças de decoração e utensílios para o lar com o uso de fibras naturais são Tecnologias Sociais capazes de gerar renda e ao mesmo tempo minimizar o impacto ambiental de resíduos sólidos no meio ambiente, aumentando o tempo de vida útil de aterros e diminuindo o gasto energético para novas produções.
Gestores de instituições públicas e privadas, lideranças comunitárias, empreendedores sociais e representantes de organizações de pesquisa de nove países (Angola, Argentina, Brasil, Canadá, Espanha, México, Peru, Uruguai e Venezuela) participarão, entre os dias 15 e 17 de abril, em Brasília/DF, da 2ª Conferência Internacional de Tecnologia Social. Com o tema Caminhos para Sustentabilidade, o encontro trará palestras e mesas-redondas, além de painéis onde serão apresentadas experiências nacionais e internacionais no campo das Tecnologias Sociais (TSs), tanto na área urbana como na área rural. Antes do encontro será realizado, também em Brasília, o 2º Fórum Nacional da Rede de Tecnologia Social (RTS).
A Conferência e o Fórum são organizados pela RTS em conjunto com a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong). Tem patrocínio dos Ministérios da Ciência e Tecnologia, do Desenvolvimento Agrário, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, da Integração Nacional e do Trabalho e Emprego, além das seguintes instituições: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Nordeste, Caixa Econômica Federal, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Fundação Banco do Brasil, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (Nead), Sebrae e Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Apóiam o evento a Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), o Fórum de Pró-reitores das Universidades Públicas Brasileiras (Forproex), o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), a Rede Cerrado e a Petrobras.