Com metodologia internacional, a Oficina traz para São Paulo o programa do concorrido curso de criação literária do gaúcho Assis Brasil
A cidade de São Paulo acaba de ganhar seu primeiro núcleo para formação de escritores nos moldes dos tradicionais cursos de Creative Writing existentes em todo o mundo. Trata-se da OFICINADEESCRITACRIATIVA, fundada pela jornalista e escritora Rosangela Petta, que já abriu suas portas sob a chancela e parceria de Luiz Antonio de Assis Brasil escritor gaúcho que há 25 anos comanda a concorrida Oficina de Criação Literária da PUC-RS e, a partir de 1º de janeiro de 2011, assume a Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. Ao lado de Assis Brasil e Rosangela, responsáveis pelo curso anual de Ficção, está o também jornalista e escritor Humberto Werneck, ministrante do módulo de Não-Ficção.
A principal característica desta metodologia é a ênfase em intensos exercícios de técnicas de escrita, acompanhados de minuciosa análise crítica da produção dos alunos. Para favorecer a produtividade do grupo, cada turma terá, no máximo, 15 vagas outra marca dos programas internacionais de Escrita Criativa. São Paulo tem muitos cursos livres de literatura, alguns deles excelentes, mas são baseados em palestras. Faltava um programa para desenvolver, de fato, a prática da escrita entre os participantes, diz Rosangela. Os raríssimos cursos práticos de criação literária que existem aqui são iniciativas isoladas e ocasionais, sem continuidade, o que não permite o aprimoramento do método e dos programas.
Preparada para aplicar mais de 40 módulos diferentes, com duração anual, semestral, bimestral e mensal, a OFICINA visa promover a interdisciplinaridade entre criação literária, artes gráficas, jornalismo, música, teatro, cinema, televisão e as novas tecnologias. Para apoiar a profissionalização do setor, também dará orientação sobre direitos autorais, estratégias e mercado. E para atender à demanda do público por mais conhecimento e cultura, terá Oficinas de Leitura e Oficinas in Company, entre outras. Em todas as modalidades, buscará equilibrar as turmas, visando o máximo aproveitamento dos participantes por isso, enquanto os cursos anuais como Ficção e Não-Ficção preveem processo seletivo, os demais fazem recomendações mínimas, indicando faixa etária, escopo de interesses e perfil do público-alvo.
O fato de frequentar uma oficina não transforma ninguém em escritor, mas a técnica liberta o talento, afirma Assis Brasil, que pela primeira vez será ministrante fixo de um curso semelhante ao que comanda com muito sucesso no sul e no qual revelaram-se escritores como Amilcar Bettega, Cíntia Moscovich, Daniel Galera e Michel Laub, dentre mais de 450 participantes. Na opinião de Werneck, o lançamento da OFICINADEESCRITACRIATIVA é uma iniciativa que caiu do céu para quem quer desenvolver a arte literária: Existe uma quantidade enorme de pessoas perdidas e atarantadas, e a Oficina pode concatenar esses esforços, proporcionar aprendizado. Espero encontrar pessoas semelhantes a mim, que tenham paixão pelo texto.
Assis Brasil, Werneck e outras grifes
A OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA representa em São Paulo, com exclusividade, o programa de criação literária em prosa criado em 1985 por Luiz Antonio de Assis Brasil. Aos 65 anos, com 19 títulos publicados no Brasil e no exterior (cinco deles adaptados para o cinema), o professor e romancista coleciona prêmios nacionais e internacionais, como o Jabuti (em 2004 e 2007), Portugal Telecom (2004), Pégaso de Literatura Latino-americana (1994) e Copa de Literatura Brasileira (2007). Assis Brasil considera bastante positiva a iniciativa de levar conhecimentos e práticas tão bem sucedidas para a maior cidade do país. Depois de 25 anos de experiência em oficina literária, creio que é chegada a hora de expandir essa experiência para um universo de maior âmbito, diz ele. Tenho recebido alunos de fora do Rio Grande do Sul, com todo o desgaste que significa, para eles, deslocarem-se por um ano inteiro até Porto Alegre, encontrar alojamento, gastar em tempo e recursos financeiros. São Paulo é, geograficamente, um espaço mais central. Digamos que a maioridade das oficinas passa, necessariamente, por São Paulo. E o que me agrada muito na Oficina de Escrita Criativa é sua multiplicidade de atuação, oferecendo opções que incluem a narrativa não-ficcional, como fazem algumas oficinas no exterior. Este é um achado muito oportuno.
Com 42 anos de carreira e 18 livros publicados, entre crônicas, biografias, contos, livros institucionais e antologias, além dos prêmios da APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte e Jabuti (ambos de 2008), o ministrante de Não-Ficção, Humberto Werneck, também está entusiasmado. Esta é a primeira vez que ele ministra um curso de longa duração, já que nos últimos 20 anos vem sendo requisitado para palestras e aulas especiais na PUC-MG, no Curso Abril de Jornalismo e no Centro Universitário Maria Antonia, entre outras instituições. Vai ser muito interessante e proveitoso desenvolver a Oficina de Não-Ficção em um ritmo mais pausado, indo mais fundo na questão da escreveção, diz Werneck.
A equipe de ministrantes convidados da OFICINA destaca-se pela combinação de notória experiência profissional e sólida bagagem cultural. Ao lado de Assis Brasil e Werneck estão, entre outros: a repórter especial da Rede Globo Neide Duarte, com aulas de Roteiro de Documentário em Vídeo; o jornalista e escritor Cláudio Fragata, na Oficina de Literatura Infantil Prosa; a professora e escritora Valesca de Assis, com exercícios de Desbloqueio para a Escrita Criativa; e a editora Alessandra Porro, com a saborosa oficina Comida & Ficção, sobre o papel da gastronomia e da cozinha como elementos disparadores da criação literária.
A arte precisa da ciência
Assis Brasil destaca a importância da interlocução especializada para qualquer autor: O escritor sempre precisou e continuará precisando ter talento. Mas mesmo os grandes escritores, que obviamente nunca frequentaram nenhum curso, utilizavam-se de técnicas para se aperfeiçoar, tirar dúvidas, receber conselhos. Eles trocavam cartas, enviavam originais para colegas e muitas vezes aceitavam e absorviam críticas e sugestões, como é o caso das correspondências entre Gustav Flaubert e Louise Colet ou entre Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. A necessidade de conhecimento técnico é tão antiga que Assis Brasil cita uma lenda mais conhecida como O sonho da mãe de Virgílio: ela sonha que dá à luz uma coroa de louros, procura um adivinho para descobrir o significado, recebe a revelação de que será mãe um grande poeta, mas ouve um último conselho: Quando chegar a hora certa, mande-o para Roma para que ele aprenda a escrever com os grandes. Pois então é isso: a arte precisa da ciência, comenta Assis Brasil.
O professor também desmistifica a hipótese de padronização dos textos que uma oficina poderia produzir nos oficineiros. Segundo ele, em 25 anos de oficina na PUCRS isso não aconteceu. Comprovadamente, digo que a produção de meus alunos não foi tolhida em sua forma individual de expressão literária. Muito ao contrário. A discussão coletiva dos textos propicia diversidades estilísticas e de conteúdo, fazendo com que o aluno se aventure pela inovação estética. Claro que é possível realizar uma carreira ou uma brilhante obra literária sem que se passe por uma oficina. A história está aí para confirmar. Contudo, numa oficina os caminhos tornam-se mais breves e a possibilidade de erros de percurso é bem menor.
Um local com história, conforto e charme
A sede da OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA ocupa 125 metros quadrados do 27º andar do Edifício Itália, célebre construção protegida pelo Patrimônio Histórico e Arquitetônico da Cidade de São Paulo, situada em um dos trechos mais charmosos do centro revitalizado: a esquina das avenidas Ipiranga e São Luís. Além da facilidade de acesso por meio de duas estações de metrô (República e Anhangabaú), estacionamentos e corredores de ônibus , o local está cercado de teatros, hotéis, centros culturais, restaurantes, bares e ampla rede de conveniência.
E até em suas instalações a OFICINA segue os moldes clássicos dos cursos de Creative Writing: mesões únicos, feitos sob medida, para propiciar conforto e facilidade na troca de experiências entre os participantes. As salas de aula contam com equipamento multimídia, ambiente em rede wi-fi e acervo de livros referenciais para apoiar a bibliografia de cada ministrante. Acessando o portal, os alunos também encontrarão conteúdo exclusivo, com exercícios e biblioteca on line.
Inscrições para 2011
As inscrições para o processo seletivo das oficinas de Ficção e de Não-Ficção ficam abertas de 19 de novembro de 2010 a 5 de fevereiro de 2011, com início das aulas em março. Outras oficinas, em diversos formatos e horários, serão oferecidas a partir de fevereiro de 2011. Detalhamento dos cursos, proposta do empreendimento e informações adicionais podem ser obtidos no portal www.oficinadeescritacriativa.com.br, que estréia em 18 de novembro de 2010.
PERFIS
ROSANGELA PETTA Criadora da OFICINA, é dramaturga e consultora em comunicação. Jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), trabalhou nas redações do Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, IstoÉ, Playboy, Revista Goodyear e TV Cultura, além de escrever para publicações como Claudia, Exame, Marie Claire, Nova, Revista Imprensa e Veja São Paulo, entre outras. Criou e implantou o projeto editorial da revista UMA e por duas ocasiões recebeu o Prêmio Abril de Jornalismo. Ministrou seu workshop A comunicação eficiente para mais de 20 turmas de repórteres e editores do Grupo Abril e levou versões corporativas desse programa para empresas como Cervejarias Kaiser, LOréal, Orbitall e TVA. Por sete anos foi professora-adjunta do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, onde também ministrou cursos de iniciação ao roteiro cinematográfico, na extensão universitária, além de orientar órgãos laboratoriais e projetos experimentais de conclusão de curso. Antes de obter o mestrado em Teoria do Teatro e Literatura Dramática pela ECA/USP (2008), estudou dramaturgia com Alcides Nogueira, Fidelina Gonzáles e Renata Pallottini. Fez, também, a Oficina de Autor/Roteirista da Rede Globo de Televisão e a Oficina de Criação Literária de Assis Brasil. É autora de Natal para dois (1998, especial exibido pela TV Bandeirantes), Harmonia em Negro (1999, adaptação teatral do texto de Aldo Nicolai), É Hoje! (1999, roteiro em co-autoria, selecionado pelo III Laboratório de Roteiros do Sundance Institute-SescSP-Riofilme) e A mulher com ele, comédia dramática publicada no volume 6 da coleção Teatro Brasileiro (Hamdan Editora, 2005) e encenada em Portugal pela companhia Mina de Moiros (2008-2009).
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL Doutor em Letras, desde 1985 ministra a Oficina de Criação Literária, hospedada no departamento de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e pela qual já passaram mais de 450 participantes. Esta iniciativa, de início experimental, resultou na inclusão de nova disciplina na grade curricular da PUCRS, única instituição a oferecer, no Brasil, pós-graduação em Escrita Criativa. Como ficcionista e ensaísta, publicou 19 livros, cinco deles adaptados para o cinema: seu romance de estréia, Um quarto de légua em quadro (Editora Movimento, 1976), filmado com o nome de Diário de um novo mundo; Concerto campestre (L&PM, 1997); Manhã transfigurada (L&PM, 1982); Videiras de cristal (Mercado Aberto, 1990), lançado no cinema como A paixão de Jacobina; e O pintor de retratos (L&PM, 2001), em fase de produção. Foi objeto de um documentário, O códice e o cinzel, lançado em DVD. Tem obras publicadas em Portugal, Espanha e França e, como conferencista, passou pelas universidades Berkeley, Brown, Heidelberg, Leipzig, Sorbonne, Stanford e Toronto. Dentre os prêmios que recebeu, destacam-se o colombiano Pégaso, por Pedra da memória; Machado de Assis, por O pintor de retratos; Portugal Telecom, por A margem imóvel do rio, único romance dentre os três premiados; e Érico Veríssimo, pelo conjunto da obra. Página na internet: www.laab.com.br
HUMBERTO WERNECK Cronista do site literário www.vidabreve.com, iniciou sua carreira como jornalista em 1968, no Suplemento Literário do Minas Gerais, editado pelo escritor Murilo Rubião. Trabalhou em Veja, IstoÉ, Jornal da Tarde (também como correspondente em Paris, nos anos 1970, quando foi bolsista do Institut Français de Presse, da Universidade de Paris II), Jornal da República, Jornal do Brasil, Elle, Playboy e Forbes Brasil. Publicou 18 livros, entre eles, O desatino da rapaziada (Companhia das Letras, 1992); Chico Buarque - tantas palavras (Companhia das Letras, 2006), edição revista e aumentada de Chico Buarque Letra e Música (Companhia das Letras, 1989); Pequenos Fantasmas, contos (Noves Fora, 2005); O pai dos burros, dicionário de lugares-comuns e frases feitas (Arquipélago, 2009); O espalhador de passarinhos & outras crônicas (Dubolsinho, 2010); O santo sujo, a vida de Jayme Ovalle (Cosac Naify, 2008), premiado pela Câmara Brasileira do Livro, Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e Jabuti. Prefaciou várias obras e organizou diversas coletâneas, além de escrever livros institucionais como Gessy Lever, história e histórias de intimidade com o consumidor brasileiro (2001) e Juscelino Kubitschek, o tocador de sonhos (Projeto Memória, 2002).
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