Em 2008, em Curitiba e na região metropolitana, foram registrados 4.894 casos de agressão física e sexual a crianças e adolescentes. Oitenta e cinco por cento das ocorrências aconteceram dentro de casa: foram praticados por pais, padrastos, tios, irmãos, primos e avós. Os dados são da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente em Situação de Risco para a Violência.
Segundo a advogada Maria Leolina Couto Cunha, coordenadora nacional da ONG Centro de Combate à Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes (Cecovi), a prevenção junto às famílias é a ferramenta mais importante para resolver o problema. A violência doméstica é uma questão cultural, universal e cíclica, transmitida de geração para geração. Somente quando conseguimos quebrar o elo dessa corrente combatemos o fenômeno efetivamente, salienta.
Maria Leolina diz que a prevenção, para que ocasione uma mudança cultural, deve combater cinco mitos que legitimam a violência doméstica contra o público infanto-juvenil. São eles: Mito da perfeição familiar: falsa ideia de proteção dentro do núcleo familiar, sendo que ele é um espaço de conflitos devido à diferença de gêneros e de gerações; Mito do amor natural dos pais: as pessoas têm dificuldade em aceitar que o amor paterno e materno não é automático, mas desenvolvido ao longo da gestação e do crescimento dos filhos, o que pode não acontecer; Mito do fator econômico: a violência doméstica está presente em todas as camadas sociais. A pobreza influencia, mas não é o principal causador; Mito das estatísticas: apesar de estar aumentando, o pequeno número de denúncias à justiça mascara a dimensão do problema e reproduz o fenômeno; e Mito da criança de imaginação fértil: é comum a vítima não ser levada a sério quando pede ajuda.
Entretanto, estima-se que cerca de 90% das crianças que relatam casos de abuso sexual falam a verdade, e que 4% das que mentem são influenciadas por adultos. A advogada também destaca a importância da denúncia, que pode ser feita aos conselhos tutelares (eles fazem os encaminhamentos necessários, como para registro de boletim de ocorrência, exame de corpo de delito, apoio psicológico, etc.), ONGs e disque-denúncias. Ela afirma que um dos maiores obstáculos ao enfrentamento da violência doméstica é o silêncio e a cumplicidade das famílias, que por diversos fatores não desejam que os casos tornem-se públicos.
Um levantamento referente ao Disque 100, central nacional de registros de abuso e exploração sexual infantil e juvenil, mostrou que em 2008 houve um aumento de 30% nas denúncias em relação a 2007. Na comparação com 2006, o crescimento foi de 135%. O enfrentamento da violência exige uma ação coordenada, envolvendo a comunidade e a atuação interdisciplinar de profissionais das áreas de Psicologia, Educação, Medicina, Direito, Serviço social e Jornalismo, dentre outras, explica, destacando a importância da imprensa. Além de programas de prevenção em igrejas, escolas e centros comunitários, por exemplo, e a atuação de conselhos tutelares, delegacias e varas especializadas, é essencial que esses profissionais sejam capacitados para lidar com a situação.
Fundado em 1999, em Fortaleza (CE), e em atividade em Curitiba desde 2003, o Cecovi desenvolve atividades nos seguintes eixos: atendimento jurídico a crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica, cursos de capacitação, palestras de prevenção e produção de materiais científicos sobre a violência intrafamiliar infanto-juvenil. No dia 10 de março encerram-se as inscrições para a 14ª turma do curso de capacitação a distância Enfrentamento da Violência Doméstica Contra Crianças e Adolescentes.
Composto por sete módulos mensais, o curso capacita os participantes a criar programas de prevenção e combate à violência doméstica. Os interessados podem obter mais informações sobre os serviços prestados pelo Cecovi pelo telefone (41) 3363-5089 e no www.cecovi.org.br.