Levar conhecimentos sobre literatura infantil e cultura a crianças carentes, através de oficinas diárias. Esta é uma realidade que ocorre há nove anos no projeto do Centro de Literatura Interativa da Comunidade (Clic), idealizado pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Letras (Fale) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A iniciativa foi implantada no Campus Aproximado da Universidade na Vila Nossa Senhora de Fátima, em Porto Alegre, e por ela já passaram mais de 900 crianças de sete a 14 anos.
O Clic é baseado em oficinas ministradas por alunos de graduação e pós-graduação da Fale, com a função de incentivar a leitura e o contato com obras literárias. Para isso, os pequenos são divididos em grupos de dez alunos, com aulas pela manhã e à tarde, de segunda a sexta-feira, totalizando aproximadamente cem crianças atendidas por ciclo.
Segundo a coordenadora do projeto, professora do Programa de Pós-Graduação da Fale Vera Aguiar, o foco desses encontros é o livro de literatura. "A partir de uma obra da literatura infantil, os participantes fazem peças de teatro, músicas, contam histórias, fazem desenhos com sucatas e utilizam o computador, entre outras atividades", enumera.
O Clic conta ainda com uma biblioteca com cerca de mil exemplares utilizados para os trabalhos. Uma vez por mês ocorrem encontros culturais, nos quais autores, ilustradores, cineastas, músicos e outros profissionais da arte participam das atividades, falam da sua experiência e interagem com as crianças. Já participaram do projeto o cineasta Carlos Gerbase, o cartunista Rodrigo Rosa e a escritora Sissa Jacoby, entre outros.
Para Vera, a iniciativa tem sua importância duplicada, pois beneficia ao mesmo tempo os estudantes da Fale e a comunidade da vila. "O Clic é um laboratório de pesquisa e ação em leitura, permitindo a qualificação de nossos alunos. Por outro lado, oferece uma inclusão social através da leitura e outras manifestações culturais", coloca.
A monitora do projeto e acadêmica do sexto semestre da Letras Giovana Camillo ressalta a importância do Clic para a sua formação. "Aprendi a trabalhar com as diferenças. O que a gente vê na faculdade são pessoas de um nível social muito diferente, tu tens que vir para o Clic livre dos teus problemas, para dar a eles o melhor de ti", adianta.
Giovana destaca que muitas crianças têm somente nas aulas um canal de acesso à cultura. "Os vemos despertando para a cultura, dizendo que viram na TV um escritor que trabalhamos. É gratificante as respostas que eles dão, para o pouquinho que oferecemos".
Para as crianças, o projeto é muito mais do que uma oficina de leitura. É uma oportunidade de entrar em contato com o mundo cultural e também de aprender aspectos humanos, como a solidariedade e o respeito com o próximo. Gosto muito das aulas. Aqui eu aprendi a mexer no computador, a respeitar mais os meus colegas, conta Tamires Redivo, 12 anos. Para Kevin Pinto, de 11 anos, os três anos no Clic ensinaram muito mais do que literatura. Eu aprendi a ter educação, não brigar com os colegas, ter respeito e gostar de ler", conta o menino.
Luís Pedro Fraga, responsável pela seleção das crianças da comunidade, ressalta a importância para a vila: "Hoje eu vejo o Clic como um serviço, uma necessidade da comunidade, e não mais como um projeto". Ele acompanha a iniciativa desde o início e nota a evolução no aprendizado dos participantes: "Tem crianças que chegam com dificuldade de leitura e saem lendo".
Mas o Clic não é privilégio somente dos pequenos da comunidade. Mediante o grande interesse das famílias, há dois anos foi criada a mala de leitura. Em uma mala de viagem são depositados livros de literatura infantil, infanto-juvenil , adulta e revistas. "Saio com a mala e visito as casas para eles poderem escolher os livros que gostariam de ler. Caso não sejam alfabetizados, eu mesmo conto as histórias. Desta forma, a