Pesquisa que levou ao registro reúne um conjunto de referências históricas
‘O samba é um bonito modo de viver’.
Nelson Sargento, sambista da velha-guarda
O mais recente Patrimônio Cultural do Brasil tá no pé do sambista, na mão do pandeirista, no som do cavaco, em cima dos morros, na Marquês de Sapucaí. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou, oficialmente, as matrizes do Samba do Rio de Janeiro - samba de terreiro, partido-alto e samba-enredo - no Livro de Registro das Formas de Expressão, do Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro.
A proposta foi aprovada pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão colegiado da estrutura do Iphan, reunido na terça-feira, 9 de outubro, no Rio de Janeiro. A solicitação de registro foi uma iniciativa do Centro Cultural Cartola, com apoio da Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa).
Nilcemar Nogueira, neta do compositor Agenor Ferreira, o Cartola, fez o pedido, pois temia o enfraquecimento das matrizes do Samba do Rio. "Meu avô foi um dos pioneiros da popularização dessa forma de Samba, no final da Década de 20. Quero proteger seu legado cultural", ressalta.
Feita pelo Centro Cultural Cartola com apoio do Ministério da Cultura e orientação do Iphan, a pesquisa que levou ao registro reúne um conjunto de referências históricas: monografias, teses, livros, vídeos, reportagens, discografia da época e o testemunho de componentes das Velhas Guardas, como Monarco da Portela, Xangô da Mangueira, Nelson Sargento.
O trabalho identifica, desde as reuniões em casa de Tia Ciata, no início do Século XX, o Samba nos morros, nos blocos, nas ruas e quintais. O estudo mapeou as seis escolas de samba mais antigas agremiações cariocas: Mangueira, Portela, Salgueiro, Vila Isabel, Império Serrano e Estácio de Sá.
A partir do material pesquisado, o Iphan produziu um videodocumentário e um dossiê de pesquisa. Ambos estão disponíveis no site .
Matrizes do Samba
O Samba de Terreiro faz referência aos espaços de encontro e celebração dos sambistas, que ali dançam um samba livre com as marcas de sua ancestralidade. Nos terreiros, pátios das Escolas de Samba, cantam as experiências da vida, o amor, as lutas, as festas, a natureza e a exaltação das escolas e da própria música.
Já o Partido-Alto é marcado pelos versos de improviso. Nasceu das rodas de batucada, onde o grupo marca o compasso, batendo com a palma da mão e repetindo o refrão e inventando estrofes segundo um tema proposto. É o refrão que serve de estímulo para que um participante vá ao centro da roda sambar e com um gesto ou ginga de corpo convide outro componente da roda.
Com a criação das primeiras Escolas de Samba, no final da Década de 20, o Samba se adaptou às necessidades dos desfiles no asfalto. Criou-se uma nova estética e uma nova modalidade: o Samba-Enredo. O compositor elabora seus versos com base no tema (enredo) a ser apresentado pela escola, descrevendo uma história, de maneira melódica e poética. De sua animação e cadência depende todo o conjunto da agremiação, tanto em termos de evolução como de envolvimento harmônico.
Salvaguarda
A preservação da tradição do samba no Rio de Janeiro foi pensada de forma a retomar a prática espontânea, de improviso, sem limitar a transmissão do saber às aulas das Escolas de Samba. Com a espetacularização do Samba-Enredo, diminuíram-se os espaços para se praticar as formas mais tradicionais do Samba - Partido-Alto e Samba de Terreiro. Houve redução da quantidade de solistas de instrumentos como o pandeiro e a cuíca, e a diminuição no número de partideiros, os improvisadores.
Por isso, o Iphan recomenda a criação de um Plano de Salvaguarda que incentive, apóie e promova ações de valorização das formas originais do Samba no Rio de Janeiro. Esse plano requer a articulação das comunidades de sambistas, inclusive da Velha Guarda, principais detentores dos saberes tradicionais.
Entre as ações preliminares, sugeridas a partir da demanda dos próprios sambistas, está o incentivo à pesquisa histórica e à produção de biografias. Ao mesmo tempo, promover encontros de mestres partideiros e versadores, nas próprias comunidades originais dos sambistas, com a presença dos mais jovens. O registro em áudio e vídeo desses encontros ajudaria a difundi-los e revitalizá-los.
O Samba do Rio de Janeiro contribui para a integração social das camadas mais pobres. Tornou-se um meio de expressão dos anseios pessoais e sociais, um elemento fundamental da identidade nacional e uma ferramenta de coesão, ajudando a derrubar barreiras e eliminar preconceitos. Incentivar a prática do Samba é também uma maneira de minimizar as diferenças sociais.
A identificação e o reconhecimento das formas de Samba brasileiras é uma das diretrizes do Iphan, que se insere na proposta da atual gestão do Ministério da Cultura, de construção de um mapa cultural do Brasil. Entre os 11 bens reconhecidos como patrimônios imateriais brasileiros, se destacam algumas das várias formas de Samba dançadas no território nacional. Já receberam o título: o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, o Tambor de Crioula no Maranhão e o Jongo no Sudeste. .
(Texto: Ascom/Iphan)
(Edição: Comunicação Social/MinC)